Durante muito tempo eu ouvi duas frases se repetindo: “o metaverso é o futuro” e, logo depois, “o metaverso morreu”.
Sinceramente, nenhuma das duas me convenceu.
O que eu vejo hoje é algo bem menos épico e, justamente por isso, mais interessante. O metaverso não morreu, mas também nunca foi aquele “mundo pronto” que muita gente imaginou. Ele está se organizando aos poucos, camada por camada.
Quando olhei com calma para o Metaverse Wheel, um framework da Gartner, a sensação não foi de revelação, mas de confirmação. Aquilo ajudou a dar nome a coisas que eu já vinha percebendo na prática.
O metaverso não é uma coisa só e talvez nunca seja
A primeira conclusão, para mim, é simples: o metaverso não é um produto.
Não é um aplicativo, não é um headset, não é um jogo e nem um “lugar”. Ele é uma convergência de tecnologias, experiências e tentativas, algumas funcionando, outras nem tanto.
Talvez o erro tenha sido esperar uma virada de chave, como se um dia a gente acordasse e pronto, agora vivemos no metaverso.
Na prática, o que existe é um processo.
Computação espacial: onde tudo começa a fazer sentido
Se eu tivesse que apontar um ponto central dessa história toda, seria a computação espacial.
Não porque ela já esteja perfeita, longe disso, mas porque é ali que o digital começa a sair da tela e ganhar contexto no espaço físico. AR, VR, MR… os nomes mudam, mas a ideia é a mesma: dar significado ao espaço ao nosso redor.
Hoje, ainda vejo muita limitação. VR são caros, pesados, com bateria curta e casos de uso que nem sempre justificam o esforço.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar o potencial em áreas como treinamento, visualização de produtos, educação e simulação.
Não é sobre substituir o mundo real. É sobre acrescentar camadas a ele.
Games sempre estiveram um passo à frente
Quando se fala em metaverso, eu acho curioso como muita gente ignora o óbvio: os games já fazem isso há anos.
Mundos persistentes, interação social, economias próprias, avatares, eventos ao vivo. Nada disso é exatamente novo. O que mudou foi o interesse de outros setores em tentar aprender com esse modelo e, em alguns casos, replicá-lo fora do contexto dos jogos.
Um exemplo claro disso é Fortnite. Ele deixou de ser apenas um jogo há bastante tempo. Hoje é um ambiente social, com eventos, shows, colaborações culturais e uma economia que gira em torno de itens digitais e identidade. Existe comunidade ali, e isso não é por acaso.
O mesmo vale para Roblox, que talvez seja um dos exemplos mais sólidos de metaverso em funcionamento hoje. Não pela tecnologia em si, mas porque ele coloca na prática a ideia de criação, economia própria e pertencimento. Pessoas não entram só para “jogar”, entram para fazer parte de algo.
No universo mais voltado à realidade virtual, VRChat segue sendo um dos ambientes mais autênticos quando o assunto é presença social. É caótico, imperfeito, mas extremamente vivo. Ali dá para entender o que significa um espaço digital moldado mais pelas pessoas do que por regras rígidas de produto.
Por outro lado, acho interessante observar a tentativa da Meta com o Horizon Worlds. O movimento de levar a experiência do VR para dispositivos móveis mostra algo importante: talvez seja mais fácil fazer esse tipo de mundo funcionar fora do headset do que exclusivamente dentro dele. Isso diz muito sobre maturidade tecnológica e, principalmente, sobre acesso.
Criar experiências boas custa caro. Não dá para fingir que não.
Mas existe uma diferença clara entre jogos multiplayer tradicionais, com foco em passe de batalha, e experiências com conceito de metaverso. Estas últimas tentam, de fato, construir comunidade, economia própria, itens colecionáveis, eventos e até shows com um objetivo muito claro: engajar e fidelizar pessoas ao longo do tempo.
Para mim, uma coisa é evidente: mais importante do que tecnologia ou gráficos é estar presente no maior número de plataformas possível. E é aqui que surge uma dúvida que eu ainda não consigo responder.
A gente ainda não chegou, e talvez nem chegue tão cedo, a um cenário onde todos esses mundos se encontram. Onde fazem parte de algo realmente descentralizado, fora dos muros de grandes empresas, ou construído de forma verdadeiramente coletiva.
O maior desafio do metaverso, no fim das contas, talvez sempre seja esse: a descentralização.
Hoje, a única tecnologia onde todos realmente participam é a própria internet. No metaverso, eu ainda não sei se isso será possível.
E, sinceramente, desconfio de quem afirma que será simples.
Humanos digitais: interessantes, mas ainda imaturos
Humanos digitais e avatares realistas sempre me intrigaram, mas, por muito tempo, não me convenceram totalmente.Vejo potencial claro em atendimento, treinamento e representação digital, mas também vejo muita coisa artificial, engessada, sem presença real. Às vezes parece apenas uma boa ideia tentando se encontrar na tecnologia disponível. Talvez seja uma questão de tempo. Talvez seja uma questão de limites que a gente ainda não entende completamente.
Minha percepção começou a mudar quando tive contato direto com a tecnologia de personas no Apple Vision Pro. A primeira versão, sendo bem honesto, foi quase digna de piada. Funcionava, mas causava mais estranhamento do que empatia. Faltava naturalidade, faltava algo difícil de explicar, mas fácil de sentir.
Quando a segunda versão foi apresentada na WWDC de 2025, o salto ficou evidente. Não estava perfeita, longe disso, mas já mostrava evolução real em expressão, presença e coerência visual. Era possível enxergar um caminho, não apenas uma demonstração técnica.
Logo depois, vimos movimentos semelhantes surgirem em outras frentes. Samsung e Google apresentaram sua própria abordagem para avatares realistas, ainda em fase beta, enquanto a Meta segue desenvolvendo o projeto Codec Avatars, que já existe conceitualmente há anos, mas ainda não chegou ao público de forma concreta.
Isso tudo me faz acreditar que humanos digitais não são uma moda passageira, mas também não são uma solução pronta.
Eu, particularmente, adoro essa tecnologia. Acho fascinante o quanto ela pode evoluir e onde pode chegar. Ao mesmo tempo, sou honesto em dizer que ela não é para todo mundo. Avatares realistas ainda causam estranheza, principalmente para quem não está inserido nesse universo ou não acompanha de perto a evolução dessas experiências.
E talvez esteja tudo bem.
Não acredito que o caminho seja substituir pessoas. Para mim, o valor real está em ampliar presença quando a presença física não é possível. Usar humanos digitais como extensão, não como substituição.
Se esse equilíbrio for respeitado, essa tecnologia tem muito mais chance de amadurecer da forma certa.
Espaços virtuais: menos hype, mais propósito
Escritórios virtuais e eventos imersivos já me pareceram “o futuro do trabalho”. Hoje, eu olho para isso com mais cuidado.
Eles fazem sentido em contextos específicos. Treinamentos, encontros pontuais e experiências que realmente se beneficiam do espaço 3D. Fora disso, muitas vezes uma boa ferramenta tradicional resolve melhor.
O erro, para mim, é tentar forçar tudo para dentro de um ambiente virtual só porque a tecnologia permite.
O metaverso só funciona quando é compartilhado
Se existe algo que eu considero essencial, são as experiências compartilhadas.
O metaverso não é sobre você sozinho com um headset. É sobre presença, colaboração e interação. Sem isso, vira só mais uma interface bonita.
Aqui, o maior desafio ainda é o acesso. Hardware caro, conectividade desigual e curva de aprendizado. Isso não é detalhe, é um freio real.
Ativos digitais: potencial grande, confiança pequena
Tokenização, NFTs e economia digital têm potencial, mas também carregam um histórico complicado.
Fraudes, golpes e promessas vazias afastaram muita gente. Eu mesmo olho para esse tema com bastante cautela.
A ideia de propriedade digital é poderosa. O problema é o caminho até isso se tornar simples, seguro e confiável.
No fim, o que me chama atenção são os resultados
No centro do Metaverse Wheel não estão conceitos abstratos, mas resultados práticos. Produtividade, engajamento, redução de riscos e novas receitas.
Isso reforça algo que eu acredito cada vez mais: o metaverso só vai fazer sentido quando resolver problemas reais, não quando tentar impressionar.
Talvez o metaverso nunca tenha morrido
Hoje, o metaverso é menos barulhento do que já foi. Para mim, isso é um bom sinal.
Menos marketing.
Menos promessa.
Mais construção.
Não sei exatamente onde isso tudo vai chegar e desconfio de quem diz saber. O que eu vejo é um caminho sendo desenhado, mais lento, mais pragmático e finalmente mais conectado com a realidade.
Talvez seja assim que tecnologias importantes realmente nascem ou no final simplesmente deixam de existir.














