No meu último artigo sobre a Meta, em que disse que o VR não morreu e estava sendo reorganizado, talvez eu não tenha deixado claro que estava falando tanto da Meta quanto da própria tecnologia.
A realidade virtual vai continuar existindo. Ela é uma tecnologia e, como toda tecnologia, vai evoluir. Vai mudar de fator de forma, de uso, de contexto, mas não deixará de ser realidade virtual. A Meta pode continuar lançando dispositivos ou pode abandoná-los no futuro. Isso faz parte do mercado, gostemos ou não.
Dito isso, onde eu quero chegar?
Tenho lido bastante especialistas, ex-colaboradores da Meta e pessoas que admiro quando o assunto é XR. A partir disso, parei para observar com mais atenção os movimentos recentes da Meta e validar algo que sempre pensei.
A Meta percebeu que seus óculos Ray-Ban Meta foram um sucesso.(óhhh todo mundo sabe)E isso não é opinião, é fato. Foi o primeiro produto do tipo vindo de uma big tech em parceria com uma marca forte e consolidada como a Luxottica. O resultado foi positivo, a empresa ficou satisfeita e passou a olhar com mais carinho para o mercado de óculos inteligentes.
Até aqui, tudo bem.
Agora entramos em um terreno mais delicado.
Você já parou para pensar que, se a Meta vender 30 milhões de óculos inteligentes, ela vai precisar de 30 milhões de iPhones ou aparelhos Android? Esses óculos dependem desses dispositivos para funcionar plenamente. É aí que a brincadeira começa.
Imagine usuários de Android, especialmente de Google Pixel ou Samsung, recebendo óculos inteligentes dessas próprias empresas, integrados de forma profunda ao sistema operacional. Com os mesmos recursos da Meta, mas oferecendo algo que ela não consegue: continuidade total entre dispositivos.
Agora imagine a Apple, com uma base de mais de dois bilhões de dispositivos ativos, entregando um produto integrado ao seu ecossistema.
O que sobra para a Meta nesse cenário?
É aqui que fica claro o verdadeiro problema. A Meta precisa construir seu próprio sistema computacional. Não falo apenas de um sistema operacional, mas de toda a base que sustenta a computação moderna. Sem isso, qualquer esforço tende a ser uma batalha perdida no longo prazo.
A Meta não é uma empresa que nasceu com um sistema próprio, como Apple, Google ou Microsoft. Ela é, essencialmente, uma empresa de publicidade, dados e aquisições. Para atingir os objetivos que ela mesma se propôs, agora precisa entrar em um território onde nunca esteve de fato.
Nunca esteve porque ela não possui um computador, um smartphone ou um sistema base amplamente adotado. E competir com empresas que já estão consolidadas nesse espaço exige muito mais do que bons produtos pontuais.
Um exemplo claro disso é a OpenAI. Ao adquirir uma startup ligada ao ex-designer da Apple, Jony Ive, ela deixa claro que não basta ter uma IA poderosa. É preciso dar corpo a ela. Criar hardware, sistema, integração e usabilidade. Sem isso, a IA vira apenas mais uma ferramenta solta.
Com essa leitura, fica mais fácil entender por que a Meta começou a fechar a torneira dos investimentos pesados em realidade virtual. Não porque o VR morreu, mas porque outra prioridade surgiu. E não se trata apenas de óculos inteligentes, como muitos dizem.
A Meta precisa construir sua própria base de hardware e sistema. Caso contrário, todo o esforço vira queima de dinheiro.
Nesse sentido, não é coincidência que no último ano a empresa tenha aberto lojas físicas, contratado engenheiros de concorrentes diretos e montado um time robusto de inteligência artificial. O objetivo é claro: fazer do seu próprio modelo de linguagem o centro de tudo.
A IA mudou o jogo. Mudou a forma como produtos são usados, como publicidade é gerada e como as pessoas interagem com tecnologia. Mark Zuckerberg acreditava que o metaverso seria o próximo smartphone, a nova era da computação. Apostou alto e cedo demais.
A realidade virtual, especialmente no formato atual e muito focada em games, não conseguiu cumprir esse papel. Foi necessário refazer a rota.
Uma prova clara desse movimento é uma postagem feita por Daniel Gross no X, em janeiro de 2026, onde ele afirma estar estruturando a equipe de computação da Meta e buscando profissionais para ajudar a gerenciar mais de 100 bilhões de dólares em gastos com computação.

Isso deixa evidente que uma torneira precisou ser fechada para que outra pudesse ser aberta.
O mercado é assim. Empresas que querem ser sustentáveis no longo prazo precisam tomar decisões difíceis. É uma selva.
A decisão da vez da Meta foi colocar o pé no freio com a realidade virtual. E sendo sincero, até nós que gostamos de VR sabemos que ela ainda não estava pronta para ser o próximo grande avanço computacional.
Eu amo realidade virtual. Mas também reconheço que ainda existem passos importantes a serem dados para que ela entregue algo que possa, de fato, substituir outras formas de computação.
Espero ter conseguido deixar mais claro o que está acontecendo. Agora, resta acompanhar os próximos capítulos.
Se você gosta de tecnologia, sinta-se à vontade para compartilhar e voltar sempre que quiser.
Um grande abraço.















